No limiar entre o visível e o oculto, descobri a arte tumular. Esculturas, monumentos, relevos e inscrições tornam-se vestígios de uma existência, revelando formas de lembrar, crer e permanecer.
Sempre me incomodou que a arte dentro de galerias e museus fosse legitimada, enquanto tantas obras nos cemitérios permanecessem à margem do olhar. Se essas mesmas obras estivessem expostas em uma galeria, seriam vistas de outra forma?
Essa pergunta passou a acompanhar meu olhar. Mas não era apenas a arte que me atraía nesses territórios. Desde a juventude, sou movido por uma reverência silenciosa ao mistério, ao esoterismo e à possibilidade de transcendência.
Minhas imagens procuram desacelerar o olhar e criar um espaço de contemplação, mantendo abertas questões sobre tempo, presença, identidade e espiritualidade. Ao deslocar essas obras de seu lugar habitual, a fotografia constrói outras possibilidades de leitura: nas imagens individuais, uma narrativa poética, silenciosa e linear; nos trípticos, uma poética da justaposição, aproximando imagens e estados distintos para criar relações, intervalos e diálogos entre vida, morte e transformação.
Jardim dos Espíritos Sussurrantes não pretende explicar a morte, muito menos romantizar a perda: investiga aquilo que permanece quando a presença se transforma em ausência.
É nesse silêncio que procuro escutar os sussurros da arte tumular: histórias, memórias e presenças que continuam a existir entre a matéria e o tempo.